Quanto à doutrina da salvação, existem hoje duas correntes de interpretação: uma comprometida com o “determinismo”, e a outra com o “livre arbítrio”.
a) O Determinismo
O cristão determinista crê que Deus predeterminou de antemão os salvos e os perdidos, independentemente da escolha humana. A salvação, portanto, é uma conseqüência inteiramente da graça de Deus. Neste caso, a fé é expressa, não como uma decisão da parte do crente, mas, sim, como uma resposta à irresistível atuação de Deus sobre o espírito do homem. Quanto aos predestinados á perdição eterna, segundo o determinismo, embora querendo ser salvos, lhes é negado este direito. Vieram ao mundo, podem ouvir a pregação do evangelho, porém jamais se salvarão, uma vez que Deus decretou de antemão a perdição deles.
b) O Livre Arbítrio
Segundo esta corrente de interpretação, todos os tratos de Deus com o homem, inclusive a eleição e a predestinação, estão baseados nas decisões que o homem toma, uma vez que é um agente livre para aceitar ou rejeitar o dom de Deus. Mais que isto, todos os homens têm igual oportunidade de buscar a Deus, ouvir o evangelho, se arrependerem de seus pecados e serem salvos.
c) Cooperando Com a Salvação
Os defensores do determinismo estão equivocados quando salientam demasiadamente a verdade da majestade, da graça e do poder de Deus, em detrimento da insuficiência do homem para fazer qualquer coisa sem o auxilio divino. Ignoram a capacidade de decisão do homem quanto à determinação do seu futuro eterno. De igual modo os defensores do livre arbítrio correm o risco de enfatizar a livre agência do homem, reduzindo a fé a um ritual sem vida, levando o cristão a uma obediência apenas à letra do evangelho, esquecendo-se do poder de Deus operante na sua vida. A salvação, como experiência prática, só é possível com a cooperação do crente. Quanto a isto diz o apóstolo Paulo: “de sorte que, meus amados, assim como sempre obedecestes, não só na minha presença, mas muito mais agora, na minha ausência, assim também operai a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade” (Fp 2.12,13).
O LADO HUMANO DA SALVAÇÃO
A salvação é obra de Deus em favor do homem, e não do homem em favor de Deus. Como já vimos, o homem é completamente incapaz de agradar a Deus por si só, pois leva sobre si a sentença de “morte espiritual”. Por este motivo Deus mesmo tomou a iniciativa de prover a salvação independentemente dos méritos e possibilidades do homem. Há, porém, uma coisa que Deus não faz no que diz respeito à salvação do homem: Deus não o obriga a aceitá-la. Antes de experimentar a conversão, o homem precisa desejá-la, dando lugar à operação divina.
1. O Que é Conversão
O termo “conversão”, literalmente, significa “virar-se para a direção oposta”. De acordo com a Bíblia, é o ato pelo qual o pecador se volta do pecado para Jesus Cristo, tanto para obter perdão dos pecados como para liberta-se deles. Isso inclui livramento da pena do pecado. Embora nitidamente ligada ao arrependimento, a conversão difere dele, uma vez que o arrependimento enfatiza o aspecto negativo do abandono ou saída do pecado, enquanto que a conversão enfatiza o aspecto positivo da volta para Cristo (1 Ts 1.9). O arrependimento nos retira de todos os amores ou inclinações pecaminosas, enquanto que a conversão nos faz voltar para o Esposo. O arrependimento produz tristeza pelo pecado, já a conversão produz alegria por causa do perdão e livramento da pena do pecado. O arrependimento nos leva à cruz; a conversão nos leva ao túmulo vazio do Salvador ressuscitado. A conversão fala do abandono da vida de pecador para abraçar a vida real e verdadeira oferecida por Deus através de Jesus Cristo (At 14.15; 26.18; Ez 18.30). A verdadeira conversão envolve dois atos da parte do pecador: Dar as costas ao “eu” e ao pecado e crer em Deus, voltando-se para Ele e abraçando a vida eterna (At 26.30; Mt 7.14; 1 Ts 1.8,9). Se a pessoa não se chega a Deus, buscando-o, a conversão é incompleta. O simples fato de rejeitar o pecado, resultado somente numa reforma humana provisória e não em transformação divina e plena.
2. O Que é Arrependimento
O arrependimento envolve uma completa mudança de pensamento sobre o pecado e a percepção da necessidade de um Salvador. O arrependimento faz o homem ficar tão contristado por causa do pecado, que ele aceita com alegria tudo o que Deus requer para uma vida de retidão. A fé é o correlativo conseqüente do arrependimento. Os dois juntos – arrependimento e fé – constituem a conversão. A isso pode adicionar-se a obra divina do perdão. “Arrependimento para com Deus e a fé em nosso Senhor Jesus Cristo” (At 20.21) necessariamente caminham juntos. O arrependimento para salvação é encorajado pelo conhecimento de que Deus é propício ao pecador, não em fazer vista grossa ao seu pecado mas em mandar o seu Filho para morrer em lugar do pecador. A fé em Cristo é encorajada pela compreensão do propósito e significado da sua morte. É então a pregação da cruz que induz o pecador ao arrependimento e a fé. O arrependimento não é a mesma coisa que remorso. O remorso é um beco sem saída; o arrependimento é estrada transitável. O remorso olha só para os nossos pecados; o arrependimento olha para além dos nossos pecados – para o calvário. O remorso nos devolve para nós mesmos; o arrependimento nos faz voltar para Deus. O remorso nos faz odiar a nós mesmos, muito embora possamos ao mesmo tempo amar nossos pecados; o arrependimento nos leva a odiar nossos pecados e amar nosso Senhor num único ato. O remorso é a tristeza do mundo que “produz morte”; o arrependimento é “a tristeza segundo Deus” e conduz à salvação (2 Co 7.10). Os passos que levam o homem ao arrependimento, uma vez Deus operando, são: reconhecimento do pecado, tristeza pelo pecado e abandono do pecado.
3. O Que é Fé
Arrependimento é dizer “Não”, ao pecado, enquanto que a fé na salvação, é dizer “Sim”, a Deus. Este é o lado afirmativo da conversão. Enquanto o arrependimento dá ênfase aos nossos pecados, a fé fixa os nossos olhos em Cristo. A fé é um relacionamento vivo com Cristo, baseado no amor, confiança e consagração da vida e da vontade a Ele. A fé não é um mero assentimento intelectual, mas um relacionamento pessoal com Deus (Gl 2.19,20). A fé não é uma emoção que passa de uma pessoa para outra, mas uma convicção interior da pessoa (2 Tm 1.12). A fé não se dirige a um credo ou crença doutrinária, mas a uma pessoa (Cl 2.5). Fé não é um ato isolado na vida, mas uma maneira de se viver (Rm 1.17). A fé não é uma simples confissão, mas uma dedicação ou entrega, evidenciada pelas “obras da fé”, na vida da pessoa (Tg 2.18). A palavra “fé” aparece cerca de 240 vezes no Novo Testamento, nem sempre se referindo à fé para a salvação. A fé salvadora é mais do que um assentimento mental ou reação; é um relacionamento vivo entre duas pessoas: Deus e o homem. Pela impossibilidade do pecador autogerar a fé salvadora em beneficio próprio, a Bíblia a apresenta como um dom de Deus (Fp 1.29; Hb 12.2; Rm 12.3).
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As Grandes Doutrinas da Bíblia
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